O grupo teatral de São Paulo, "Cia do Tijolo", estreou, no Sesc do Crato, o "Concerto de Ispinho e Fulô", inspirado na vida e obra de Patativa do Assaré. O cenário armado ao ar livre, decorado com utensílios sertanejos, "parecia o terreiro da casa do poeta, na Serra de Santana", comparou o vice-prefeito do Crato, Raimundo Bezerra Filho, que conheceu o grupo quando morava em Brasília.
O concerto teatral começa com um grupo de paulistas visitando o poeta, depois de uma longa caminhada, sob o calor e o sol causticante do Nordeste. Armados com gravadores e máquinas fotográficas, os paulistas cercam o poeta de perguntas. Uma delas obriga Patativa a recitar o poema "Cante Lá que eu Canto Cá", que é uma resposta aos poetas clássicos que fazem poesias inspirados no sertão.
Modernidade - O grupo recita poemas modernos, enquanto o poeta Patativa responde do seu jeito sertanejo. Patativa só se descontrai quando o grupo começa a recitar os poemas de Olavo Bilac com métrica e rima. Daí pra frente é só poesia e música do começo ao fim em forma de diálogo, com a participação da plateia que lotou as dependências do teatro improvisado. O que seria uma entrevista costumeira se transforma em um grande passeio, verdadeiro encontro entre seres humanos. "Os visitantes descobrem dois mundos tão próximos e, ao mesmo tempo, tão distantes: São Paulo e Assaré", diz o ator Dinho Lima Flor.
Amor pelo sertão - O poeta se mostra por inteiro, destacando o seu amor telúrico ao sertão, a sua personalidade e coerência. "Um outro Patativa, antes tímido, se agiganta, nas asas de sua poesia brejeira, que abre espaço para profundas reflexões sobre os problemas sociais", destaca o médico da Crato, José Flávio Vieira. Dinho, que é de Tacaimbó, localizado no Estado de Pernambuco, e faz o papel de Patativa, lembra que o encantamento com o poeta veio do Nordeste. Seu projeto inicial era construir um monólogo. Foi a primeira vez que o espetáculo foi apresentado ao ar livre, tendo como decoração o céu estrelado e a lua. "O resultado foi muito bom", comemora Dinho, advertindo que o espetáculo vai se adaptando à realidade regional na medida em que o público participa e apresenta sugestões.
Origem - O nome da peça, "Concerto de Ispinho e Fulô", baseado em uma poesia de Patativa do Assaré, foi um dos primeiros elementos definidos. Quando perceberam que o título implicava em música, o grupo decidiu - no meio dos ensaios - misturar teatro com canção. "A peça acabou transformada em um trabalho de oito atores que, estudando, descobriram essa poesia universal que é, ao mesmo tempo, calcada em uma região", conta o diretor Rogério Tarifa. Ele acrescenta que o concerto tem também a finalidade de mostrar o talento de Patativa, um homem que teve apenas seis meses de escola e, no entanto, se tornou universal. É a confirmação, segundo afirmou ele, da tese de alfabetização defendida pelo educador Paulo Freire.
Fortaleza - Depois de apresentações na região do Cariri, os atores paulistas seguem à Capital cearense, onde a peça será encenada no Teatro Iracema do Sesc, um dos patrocinadores da maratona artística que percorre todo o Brasil, divulgando a cultura da região Nordeste. Além dos espetáculos, o grupo de atores está descobrindo outros valores da região. Ontem, eles estiveram no Caldeirão do Beato José Lourenço, conhecendo a área onde foi desenvolvida a mais importante experiência comunitária do Estado do Ceará e cuja comunidade foi destruída por forças militares com o apoio da Igreja Católica, no ano de 1936. Fonte: Diário do Nordeste
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